Textos categorizados 'viagens'

Na estrada

Se tem uma coisa que eu gosto de fazer nessa vida é viajar. Descobri isso não faz muito tempo. Até porque eu nunca tinha viajado de verdade, sabe? Dessas viagens que tomam dias e que deixam a gente realmente ansioso, esperando a hora de partir?

Fora que eu descobri que viagem, pra mim, tem que ser de carro, de trem ou de avião. Essa coisa do ônibus, de nem ter autonomia, nem espaço, nem ir de uma vez só me angustia. Digo isso porque já viajei muito de ônibus. Conheço a Dutra de trás pra frente e de frente pra trás. É horrível não saber quem vai sentar do seu lado, se você vai conseguir dormir ou não, se a parada vai ser num lugar bom. E não dá pra andar dentro. Porque o carro tem pouco espaço como o ônibus mas você pára onde quer. O trem é um pouco mais espaçoso, não faz paradas mas é mais rápido, você pode andar por ele e geralmente as cabines têm um pouco de privacidade. E o avião é até mais apertado do que o ônibus mas é muito mais rápido, muito mais rápido.

Quando eu era criança ia sempre pros mesmos lugares. Aí você pára de chamar isso de viagem, porque não tem mais novidades. Tem, de coisas diferentes do cotidiano, mas não aquele encantamento de descoberta, sabe? Ia sempre pra Ibiúna, no interior de São Paulo, e pra São Sebastião, no litoral. Sempre. O mais diferente disso, durante a infância e a pré-adolescencia, foi ir até Campos do Jordão e até Caldas Novas, em Goiás (que eu gostei muito, por sinal, mas que lembro pouca coisa, na verdade).

Aí, com 17 anos fiz minha primeira grande viagem sozinha. Fui conhecer o Rio de Janeiro. Me hospedei no único Albergue que tinha na época, o Chave do Rio, no Humaitá (que hoje não existe mais), e rodei a cidade com um amigo carioca como guia. Foi tão, mas tão incrível que, 6 meses depois, eu me mudei pra cidade.

Foi quando começou minha vida na Dutra. No primeiro ano ia quase todos os finais de semana pra São Paulo. No segundo diminuí pra 15 em 15 dias. No terceiro, uma vez em 45 dias. No quarto, uma vez por mês. E assim por diante até perder completamente a paciência com viagens de ônibus. Hoje, vou a São Paulo quando necessário, quando bate muita saudade, e/ou quando a grana dá, porque só vou de carro ou de avião – o que pode gerar intervalo de meses.

Já morando no Rio eu acabei, de carona com amigos e amores, conhecendo a região. Petrópolis, Arraial do Cabo, Cabo Frio, Saquarema, Rio das Ostras, Matias Barbosa, Juiz de Fora… ia pra onde me levavam. E ia feliz, a qualquer momento, era só chamar. Me ligavam em cima da hora: tou indo, quer ir? Eu arrumava uma mochila e saía. Não tinha nada que me prendesse mesmo.

Em 2004 tive minha primeira experiência de viagem internacional – fui conhecer o Chile – e repeti a dose em 2006 – uma viagem de 45 dias pra Europa, pra participar de um casamento grego-cipriota. Me informei o máximo possível sobre cada lugar que eu ia passar pra tentar escolher os melhores. E me dei conta que cada lugar é um lugar, cada povo, cada cultura… não importa o quanto você conheça, sempre vai ser diferente.

Acho que quando a gente cresce é que vem a idéia de que cada viagem é única. Que cada lugar é um lugar em seu particular momento. Hoje eu consigo perceber isso nas minhas viagens de infância, especialmente depois de ter passado por lugares que talvez eu nunca mais passe de novo. Eu mudei, eles mudaram, mesmo se eu voltar as coisas vão ser diferentes.

Acho que foi essa consciência que me fez gostar tanto de viajar. Porque é quando a gente sai da rotina que a gente percebe como tudo muda rápido, como as pessoas são diferentes, como o mundo é grande. E tem tanta coisa pra aprender!…

República Tcheca

Castelo de Praga visto da Torre Karluv

Hoje passou um documentário excelente no EuroChannel sobre o imperador Rodolfo II, da Bohemia – hoje República Tcheca. E eu, que já adoro aquele lugar, não tive como não assistir. E fiquei impressionada como o cara era esclarecido. Enquanto toda a Europa entrava em crise pós-renascença, ele estimulava a produção artística e científica. Era mecenas e bancava estudos de astronomia, alquimia e até astrologia. Transformou Praga na capital de seu Império e fez acordos com os protestantes, sendo o primeiro a decretar liberdade de culto na Europa, e talvez em todo o mundo. Claro que o cara foi detido e morreu isolado. Depois disso a República Tcheca entrou em guerra santa e só saiu da escuridão com o fim do comunismo, em 1989.

Eu estive em Praga em 2006 e fiquei encantada. É uma cidade linda, harmoniosa, educada mas descontraída. A população é das mais bonitas que já vi. O peão de obras lá tem cara de modelo. E são todos muito descolados – devido à baixa religiosidade da população [segundo o Censo de 2001, 59% da população se considera sem religião]. Aparentemente é um dos países com maior concentração de ateus no mundo [30% da população], e vivem muito bem com a (pouca) diversidade religiosa [26,8% de católicos, 2,5% de protestantes e 59% de agnósticos, ateus, espiritualizados mas sem religião]. As poucas igrejas de Praga são seculares e usadas mais para concertos musicais do que para missas. Herança do Rodolfo II, agora eu sei.

Viu? A tevê não é tão oca assim – depende do que você assiste.


Quem?

Elisa Colepicolo, ou Lili, é blogueira desde 2003, faz de tudo um pouco mas dificilmente o que não gosta. Chegada em arte, cultura inútil e viagens. Casada, entusiasta e feliz.

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