Textos categorizados 'Rio'

Uma maratona olímpica

E então ontem, 2 de outubo, o Rio de Janeiro ganhou o direito de seriar os jogos olímpicos de 2016. Claro que o carioca comemorou. Mas também viu com muitas dúvidas a tal empreitada.

rio.span.600.1 (comemoração na praia de Copa – fonte: The New York Times)

Era sexta-feira, a praia de Copa estava fechada desde a manhã, o dia era ponto facultativo no serviço público e isso tudo misturado deu um nó na cidade. O trânsito estava péssimo o tempo inteiro, pra qualquer lado, independente do horário. E isso só por causa de uma festa – que ainda tinha a possibilidade de miar – bem num dia útil.

Aí que o carioca se pergunta: e como é que a gente vai conseguir receber um monte de gente e eventos simultâneos num Rio assim?

Assim, não vai. É por isso que, ou esse projeto que criaram para a cidade sediar os jogos muda tudo por aqui ou 2016 vai ser um caos.

rio2016_02_1707Conheço muito carioca preocupado com isso. Diz “mas tem tanta coisa mais importante pra fazer pelo Rio do que um monte de intalação esportiva!…”. E tem mesmo. E pelo que soube o projeto aposta nisso: cerca de 40% dos investimentos vão pro transporte, a polícia vai ser mais do que reforçada, e uma reforma completa no funcionamento da cidade está a caminho. O que significa que, assim como Barcelona antes dos jogos de 1992, o Rio vai se tornar um imenso e caótico canteiro de obras até 2016. Vai ser chato, estressante, mas acho que é igual xarope amargo – ruim na hora pra ficar bom depois. E esse é o maior desafio dos governos, na verdade: fazer o Rio ganhar com isso mais do que os tais equipamentos esportivos – ganhar um “depois”.

A educação do povo, acho mais do que provável, que mude. Vai se falar mais em esporte com as crianças. E com isso, elas vão praticar mais, aprender a socializar e ter responsabilidade. Vão sonhar em participar dessa festa. E se o governo incorporar isso nas escolas, melhor ainda.

Ainda tem a violência, claro. Mas te digo que, apesar da fama, o Rio não é mais violenta do que São Paulo ou outras grandes cidades brasileiras. Eu, por exemplo, morei 17 anos em Sampa e fui assaltada 5 vezes, fui até refém com arma na cabeça, enquanto aqui no Rio, já completando 10 anos, nunca me aconteceu nada. Pode ser sorte, mas a questão é que a violência desenfreada de hoje é mais do que um problema carioca – é um problema nacional. Vamos torcer pra que esse projeto de olimpíadas faça algo pela nossa parcela do problema e – por que não? – por outras parcelas também.

Se vai ser bom ou ruim, se estamos sonhando alto demais ou se a gente vai tomar o maior tombo nessa história, a gente tem sete anos pra descobrir. Só sei que eu, da minha parte, vou colaborar com o que pedirem pra que dê certo. Afinal, se é pra melhorar, sete anos passam voando!

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(PS: Não dá pra deixar de comentar a gaiatice (como diria Ancelmo Góis) do nosso povo, né? Claro que não iam deixar passar uma piada dessas! rs…)

***

ATUALIZAÇÃO (04 de outubro de 2009):

Pra quem ficou curioso/interessado, O Globo publicou a lista de promessas para as Olimpíadas. Tá aqui ó.

Se tudo acontecer mesmo o Rio vai ficar uma cidade massa! ;)

Um Lobo Nada Mau

Quarto_2

Re-estreou nesse final de semana (16 de maio) o musical infantil “UM LOBO NADA MAU”, de Roberto Athayde, no Teatro do Shopping Fashion Mall (e adivinha quem está no elenco?).

A peça é sobre uma garotinha que, após ficar no quarto escuro com os bichos malvados imaginários como castigo por ter beijado o focinho de seu cachorro, é salva por uma fada moderna que a leva para conhecer como são os bichos de verdade, livres, do Pantanal.

A direção é da Marília Pera e o elenco é formado por Ricardo Graça Mello, Maria Lucia Priolli, Roberta Rique, Claudio Gardin, Tatiana Athie, Elisa Colepicolo (!), Rafael Durand, Celio Rentroya, entre outros.

Arrume uma criança pra levar como desculpa e vá se divertir! ;)

Quarto Escuro_3

(Nas fotos: Ricardo e Roberta; Tatiana e eu)

 

 

UM LOBO NADA MAU

De Roberto Athayde

Direção Marília Pera

Teatro do Shopping Fashion Mall – São Conrado – Rio de Janeiro

Sábados, Domingos e Feriados – 17h.

Etna

Eu sempre adorei decoração. Sempre, desde criança. Minha mãe comprava revistas e eu ficava folheando, vendo aquele monte de casa diferentes, lindas. E, de vez em quando, a gente ia ao Lar Center, em São Paulo, olhar a Tok & Stok. Só olhar, porque ela era muito cara pros nossos padrões. E era tudo tão lindo…

Já no Rio, meu primeiro salário (de estagiária ainda) eu usei pra comprar uma cama de casal estilo japa, da Tok & Stok. Ela era linda, cara, mas necessária no meu apartamentinho pequeno e charmoso na Glória. Mas foi só isso que eu comprei durante um bom tempo.

Aí, há um pouco mais de um ano, minha irmã me contou de uma outra loja – a Etna -, no mesmo estilo (móveis e objetos estilosos, de design funcionais  e “simples”) que tinha aberto em São Paulo. E melhor, mais barata.

Obviamente eu e meu marido gastamos uma grana lá já que estávamos justamente montando nosso apartamento. Mas não deu pra comprar muita coisa já que a loja ficava em São Paulo e nós, no Rio.

etna

Mas… não é que abriu – não faz muito tempo – na Av. Ayrton Senna, na Barra, uma loja enorme e linda da Etna? São móveis, tapeçaria, cama-mesa-e-banho, utensílios, iluminação, objetos de decoração… tudo pra quem gosta de uma casa de revista!

Vale a pena dar um pulo lá (mas cuidado com as tentações)!

(e uma dica: se você for na hora do almoço, eles têm um restaurante ótimo – e barato)

Provas do crime

Pra ninguém dizer que é implicância minha, aí estão as fotos da rua Humaitá e seus entornos ontem:

Cruzamento da Macedo Sobrinho com a Humaitá - note que a faixa reversível está vazia enquanto as duas sentido Botafogo estão paradas.

Cruzamento da Macedo Sobrinho com a Humaitá - note que a faixa reversível está vazia enquanto as duas sentido Botafogo estão paradas.

Esquina da Macedo Sobrinho com a Visconde Silva - parada, como sempre.

Esquina da Macedo Sobrinho com a Visconde Silva - parada, como sempre.

Esquina da Visconde Silva com a Humaitá bem no final da faixa, em frente à Miguel Pereira - note que a faixa está vazia (a não ser pelo táxi que atropelou um pedestre)

Esquina da Visconde Silva com a Humaitá (parada) bem no final da faixa, em frente à Miguel Pereira - note que a faixa está vazia (a não ser pela ambulância e pelo táxi que atropelou um pedestre)

Faixa no Humaitá pra quê?

Remendo

Hoje a CET-Rio botou pra funcionar a nova faixa reversível da cidade, na Rua Humaitá. Ela começa na altura do Largo dos Leões, na Rua São Clemente, e vai até a rua Humaitá na altura da rua Miguel Pereira – sentido Jd. Botânico. Segundo eles, a reversão foi planejada para desafogar o congestionamento da rua São Clemente no horário do rush (das 17h às 20h).

Obviamente não foi isso o que aconteceu.

Quem mora ou conhece um pouquinho mais o bairro do Humaitá sabe que ela sofre dois estreitamentos críticos: um no final da rua São Clemente, quando ela vira rua Humaitá (que é bem onde congestiona); e outro na bifurcação da rua Humaitá com Visconde Silva, onde o trânsito da Lagoa, Jd. Botânico, Rebouças e Fonte da Saudade desembocam para distribuir motoristas que vão pra Botafogo tanto pela rua Voluntários da Pátria como pela rua Visconde Silva. E é exatamente aí que está o erro da CET-Rio: acreditar que esse trânsito, que vem de quatro vias diferentes, é menos intenso que o da São Clemente.

Foi exatamente o que aconteceu hoje, logo no primeiro dia de aplicação da faixa reversível. Congestionamentos enormes nas quatro vias que desembocam na rua Humaitá, já que esta afunilou nesse sentido (Lagoa-Botafogo) para apenas duas faixas. Fora um atropelamento justamente na faixa reversível.

A CET-Rio alega que os carros que seguem para Botafogo devem desviar para a rua Visconde Silva. Mas esquecem que a continuação dela, a rua Pinheiro Guimarães, também sofre neste horário devido a saída do túnel velho de Copacabana e ao acesso à rua Mena Barreto pela rua São João Batista, ali logo em frente ao cemitério.

Fica claro com isso que a Prefeitura está apenas tapando o sol com a peneira, já que não há outra saída para o bairro de Botafogo que não seja a melhoria dos transportes públicos, em especial a tão prometida linha de metrô Botafogo-Gávea – que, aparentemente, foi riscada dos planos da cidade.

Enquanto isso a gente torce para que a CET-Rio perceba o grande erro que cometeu e acabe com esse nó que eles criaram na rua Humaitá.

O caos do Humaitá

O caos do Humaitá

No mapa:

em azul – o trânsito sentido rebouças que levou à faixa reversiva;

em vermelho – a tal faixa reversiva;

em laranja – o congestionamento gerado pela tal da reversão.

Quando eu cheguei no Rio – parte 5

Avisei aos velhinhos que eu tava de mudança. Eles ficaram um pouco decepcionados. A essa altura do campeonato eles já estavam mais do que acostumados comigo – afinal, que ótima moradora essa que não reclama das brigas, não dá pití e ainda ensina a usar a internet em seu próprio computador, não?

Conversei com meu pai e ele topou tudo e deu carta branca pra eu comprar o que precisasse. Só o que precisasse. E isso queria dizer cama-fogão-geladeira.

Primeiro fui atrás da cama, a geladeira e o fogão ele compraria comigo quando viesse me ajudar na mudança. Como eu tava do lado da Rua Barata Ribeiro, com todas aquelas lojas, foi por lá mesmo que eu fiquei. Entrei numa loja de colchões, deitei em todos, experimentei cada cama, procurei travesseiros. Depois de algum tempo, resolvida, sentei pra fechar negócio com a vendedora numa das escrivaninhas espalhada pela loja comprida e estreita. E lá tou eu, esperando a dona preencher a nota e sentindo uma cóceguinha na perna… Tentei arrumar a barra da calça, pra ver se passava, e de dentro dela caiu uma barata enorme, que saiu andando tranquilamente para junto de suas amigas, que circulavam tranquilas junto à parede. Foi só aí, de pé e morrendo de aflição daquela sensação na canela, que olhei bem em volta e vi que muitas baratas se acumulavam pelos cantos da loja. A vendedora, sem graça, não sabia o que fazer.

- Nossa, você é muito corajosa. – ela disse – Eu já teria aberto um escândalo. (!)

Paguei o mais rápido possível e corri pra casa dos velhinhos, tomar um banho e tirar a sensação daquelas patinhas na minha canela.

Antes de instalar a cama e o colchão na casa nova eu, claro, chequei pedacinho por pedacinho da cama e do colchão, pra ver se nenhuma daquelas moradoras da Barata Ribeiro tinha vindo junto, mas sabe que nunca confiei totalmente? Sempre imaginei que dentro daqueles tubos que sustentavam meu colchão devia ter uma colônia de férias…

Exercício de imaginação

Imagine uma rua de mão dupla, sem acostamento. Agora imagine que ela é uma espécie de “serrinha”, que atravessa um morro. E que, em toda sua extensão ela é tomada por casas e comércios e vielas e escadões, todos muito movimentados, de ambos os lados da pista. E que essas construções são pobres, logo não há muita ordem arquitetônica nem pública e, por falta de lixeiras coletivas, o lixo das casas se espalha até pelas ruas e calçadas, em alguns pontos formando montes. E que, pela quantidade de gente e pela falta de participação dos governos e da companhia de tráfego, as pesoas estacionam onde querem, inclusive nas curvas; que, por ser ladeira e muito populoso, as pessoas utilizam muitas e muitas motos; e que duas linhas de ônibus passam por ali, subindo e descendo pela mesma via, desviando dos carros e motos estacionados, das pessoas, das curvas estreitas, das nuvens de motos, das vans e dos outros ônibus. E imagine que todos que moram ao redor já acham isso muito normal.

(Hoje eu conheci a Rocinha)

Parte da Estrada da Gávea

Quando eu cheguei no Rio – parte 4

Depois de 6 meses morando com os velhinho no apartamento da Prado Junior e muitas participações passivas em brigas, resolvi que precisava sair de lá.

Comecei procurando apartamento no bairro ainda. O primeiro foi na própria Prado Júnior. Era na quadra da praia, num prédio com muitos comércios em baixo. Tinha um hall de elevadores aberto ao público e corredores imensos, com muitas portas. O apartamento pequeno, barulhento (mesmo sendo em andar bem alto), mas tinha vista pro mar. Não dava pra morar sozinha naquele lugar completamente desprotegido.

O segundo foi numa outra galeria, pros lados do Arpoador, na Avenida Nossa Senhora de Copacabana. Quando passei pelo corredor quase desisti de entrar no apartamento: era como o da galeria da Prado Júnior, mas tinha puta fazendo ponto no corredor. Claro que não dava pra mim – o apartamento.

O terceiro, o quarto, o quinto… todos em Copa. Todos pequenos demais, caros demais, mal localizados demais, barulhentos demais, assim mesmo, tudo junto. O bairro tem dessas coisas porque os apartamentos que eram simples pontos de apoio pras famílias que queriam ir à praia nos finais de semana, na época áurea de Copa, foram vendidos quando o bairro valorizou, nos idos dos anos 50. Então são apartamentos inabitáveis (já que não eram feitos pra isso mesmo) que se fingem de chiques. Se bem que nem fingir eles conseguem mais.

Depois de muito olhar jornal e rodar o bairro todo comecei a cogitar mudar de arredores. Olhei Botafogo, olhei Flamengo, e até Ipanema, mesmo sem cacife pra isso. E nada. Então um dia, na universidade, um amigo que sabia da minha procura disse que a família da namorada dele tinha um quarto e sala disponível na Glória. Não tava achando nada mesmo… por que não?

Eu nunca tinha ido pra Glória. Não conscientemente. Fui com ela, a namorada, de metrô. E botei isso na listinha dos pontos fortes: metrô na rua de casa. Fomos subindo a rua e eu estranhando tudo. Passamos por um paredão esquisitíssimo e o prédio ficava bem em frente. Entrei. Olhei. Fiquei encantada.

Depois, conversando com ela, a lista dos pontos fortes foram aumentando: o muro na frente do prédio era de um hospital; na rua tinha padaria, banca de jornal, mercado de frutas, locadora; o apartamento, todo equipado com armários embutidos, me isentava da compra de quase todos os móveis; eu não precisaria de fiador; o aluguel e o condomínio era pouco mais caro do que o quarto que eu alugava; e o melhor: não precisaria morar com velhinho nenhum.

Topei.

(…)

Quando eu cheguei no Rio – parte 3

Morar em Copacabana é uma experiência. Tem gente que se apega e vive isso todos os dias. Pra mim seis meses foram o suficiente.

Eu morava na rua Prado Jr, no segundo quarteirão. Meu prédio, quase que por milagre, não tinha comércio em baixo. Um prédio aparentemente dos anos 60, construído por um engenheiro que não ligava a mínima pra funcionalidade. A área do tanque ficava em cima de um platô, o que dificultava muito a movimentação de lavanderia e a passagem pela área de serviço. O corredor dos quartos era escuro, fino e imenso, dígno de filme de terror (especialmente quando eu topava com a velhinha maluca, de cabelos soltos até a cintura, em plena madrugada). E apenas um banheiro enorme, para três quartos pequenos, que viam-se uns aos outros pelas janelas.

A janela da sala, como em quase todos os prédios de Copacabana. dava de frente para as janelas de outro prédio. No caso desse, dava para o quarto-e-sala de uma trinca de travestis. Então, todos os dias, por volta das seis da tarde, eu os (as?) assistia penteando suas perucas, fazendo maquiagem, apertando seus corselets. Um evento.

Na rua, pelo menos cinco inferninhos, sendo o maior e mais conhecido o Barbarela, no cruzamento com a rua Ministro Viveiro de Castro, bem em frente à non-stop (e sem portas) Farmácia do Leme. A vantagem disso, acredite se quiser, é a segurança. Ninguém mexe com mulher nenhuma numa rua de prostituição (por isso o Pão de Açucar 24h da Viveiro é tão bem frequentado às 3h da manhã).

Mas, pra uma garota vinda da periferia de São Paulo, tinha ainda um incômodo de morar em Copa. Porque ali ninguém se conhece, todo mundo é só passante, porque o barulho é muito, a poluição visual é muita, a baderna é muito urbana, e mesmo ao lado da praia, confunde.

Com a decisão de sair da casa dos velhinhos eu comecei a procurar outros lugares. Afinal, estava na hora de deixar de ser cobaia das experiências do meu pai, dos velhinhos e de Copacabana.

Quando eu cheguei no Rio – parte 2

Eu e meu pai já tínhamos procurado repúblicas e apartamentos pra alugar, mas com uma semana de prazo e sem fiador na cidade fica bem difícil. Daí meu pai achou um anúncio no jornal. Era um quarto, pra moça solteira, na casa de uns velhinhos em Copacabana. Fomos lá ver e ele achou tranquilo. Não era o que eu esperava do começo da minha vida acadêmica, mas eu não tinha escolha. Acertamos o valor e as regras de convivência e eu me mudei.

No início aquela senhora espanhola, seu irmão e sua “amiga” venezulana me pareciam tranquilos. Como eu passava grande parte do meu dia na universidade, tudo bem. As regras de convivência eram rígidas e estranhas, como eu não poder deixar nada meu no banheiro, não poder entrar em casa pela porta da sala, só poder usar uma prateleira da geladeira, entre tantas outras. Fora que todos os dias eu acordava com cheiro de fritura, já que elas faziam salgados pra distribuir pra lanchonetes. A espanhola e a venezuelana trabalhavam nisso e o espanhol… bem, vai saber.

Mas depois do primeiro mês eu descobri que havia mais uma moradora na casa. E que ela fugia de mim. Era a esposa do espanhol, uma senhora muito idosa, também espanhola, que dormia no último quarto do corredor, logo depois do meu.

Com o tempo ela se acostumou comigo e começou até a gostar de mim. Até me chamava de boneca. Mas encontrar com ela de madrugada no corredor, com os cabelos brancos soltos até o quadril, era quase um filme de terror. Fora que ela se recusava a entender que o único banheiro da casa não podia ser ocupado eternamente justo no meu horário de saída pra universidade e que minhas ligações eram pagas por mim, então ela não deveria interrompê-las no meio. Na verdade, eu demorei pra entender que o problema dela era muito maior do que eu pensava.

Ela, a esposa do espanhol, não se dava com a venezuelana. Nunca entendi quem diabos era aquela venezuelana e nem como a discórdia começou, mas logo de cara entendi que era sério. As duas só se falavam aos berros, jogando na cara uma da outra coisas das mais bizarras, usando os palavrões mais baixos possíveis. Aparentemente a espanhola acusava a venezuelana de ter algo com seu marido e de viver com eles de favor. Mas a venezuelana desmentia e, numa dessas discussões, chegou a pegar o contrato de locação do apartamento para me mostrar que ela é que era a locatária. Não que eu quisesse saber, mas a irmã ficava tão desesperada quando elas começavam a brigar que acabava gritando por mim, para ajudar a apartar as brigas, que chegavam aos tapas e rasga-roupa.

Com essa vida, minha situação naquele apartamento na Prado Jr. foi ficando cada vez mais insustentável. Saía de manhã e não tinha vontade de voltar pra casa. Quando voltava acabava envolvida nos problemas daquela família esquisita que me cerceava, brigava entre si e nem era minha.

Foi quando, certa manhã, acordei com a esposa gritando na porta do meu quarto. Ela xingava a venezuelana de tudo e mais um pouco. E nem eram 8 horas ainda. Saí sem tomar café e só voltei na hora do almoço. Ela ainda continuava lá, na porta do meu quarto, gritando descontroladamente. Voltei pra rua, fui ao cinema, fiz hora até à noite. E quando, enfim, voltei pra casa, tudo estava quieto. Mas ao entrar no corredor me deparei com a esposa, ainda em fúria, completamente rouca, na porta do meu quarto. Ela não tinha mais voz mas tinha passado o dia todo ali.

Depois daquele dia eu comecei a procurar apartamento e acabei me mudando pra fora de Copacabana. Achei que sentiria falta, mas nunca senti. Porque a gente se acostuma com qualquer coisa? Talvez. Eu, definitivamente, aprendi a me acostumar com coisas bem melhores.

Quando eu cheguei no Rio – parte 1

Eu mudei pro Rio de Janeiro em 2000, pouco antes do carnaval. Conhecia muito pouco da cidade, tinha vindo passear uma vez, depois prestei vestibular pra Unirio e vim mais uma ou duas vezes, já pra procurar apartamento. E não foi nada fácil.

O Rio é difícil pra quem não conhece bem a cidade e procura aonde morar. Porque diferente de São Paulo, por exemplo, os arredores bons e ruins não são separados. Todo bairro do Rio tem sua área trash. E bem trash mesmo.

Claro que foi onde eu fui parar.

Cheguei de mudança, com as caixas no carro do meu pai, numa sexta no final da tarde. O quarto que a gente achou pra mim era em Copacabana e Copacabana-não-pode-ser-ruim. Pois eu não tinha a menor idéia que a Rua Prado Jr. era o centro da prostituição da zona sul do Rio de Janeiro e que um quarto lá não era o lugar mais adequado pra uma universitária de 17 anos recém-chegada. Meu pai quase surtou quando paramos o carro e ele notou as moças paradas nas esquinas, começando a jornada. Quase desistiu. Mas não tínhamos como, o quarto já tava pago e a mudança no porta-malas.

Na verdade foi menos pior do que nós pensamos. A Prado Jr. é a área mais movimentada do bairro. Funcionamento 24/7, sabe? E com as boates todas, tem leões-de-chácara por toda a região, o que faz com que a vizinhança seja segura. Diferente, mas segura.

Acabei me acostumando com tudo aquilo. Ia pro supermercado duas horas da manhã, comprar doces pra comer enquanto fazia os trabalhos de faculdade, sem medo. Ia passear na praia, ficava sentada nos bancos do calçadão lendo, e sabia que quem é dali “é da casa”.

Mas o fato de acostumar com alguma coisa não faz dela boa. E, no meu caso, o apartamento onde eu morava contribuia – e muito – pras coisas não serem o paraíso.

(…)

Rio de Janeiro, a cidade mafiosa

Li esse artigo no Blog do Mauro Ventura, dO Globo. Achei tão claro e explícito, que resolvi reproduzir aqui.

O autor é Rodrigo Pimentel, ex-capital do BOPE e autor do livro “Elite da Tropa”, que deu origem ao filme “Tropa de Elite”.

Na cidade mafiosa

Recebi e-mail de Rodrigo Pimentel, roteirista do filme “Tropa de elite” e ex-capitão do Bope. O artigo intitula-se “Cidade mafiosa”:

“Na cidade mafiosa, jornalistas são barbaramente torturados por integrantes de milícia no mesmo mês em que uma bomba é lançada contra uma delegacia de polícia em uma típica ação terrorista. Em ambos os crimes, as investigações chegam à Assembléia Legislativa. No primeiro caso, um dos acusados de comandar a sessão de espancamento, segundo a própria polícia, seria integrante do gabinete do vice-presidente da casa; no segundo caso o mandante seria um deputado do partido do atual prefeito.

Na cidade mafiosa, a Polícia Civil, agora despolitizada, descobre que na casa onde 50% dos representantes respondem a processos criminais que vão de homicídios até formação de quadrilha, se conectam os crimes praticados nas ruas.

Nessa mesma cidade, 40 deputados, agora jurisconsultos, contrariando parecer dos procuradores federais, alegando inconstitucionalidade da prisão, resolvem soltar o ex-chefe de polícia e colega deputado.

Deputados, ingênuos ou mesmos coniventes, entendem que imunidade parlamentar não se aplica apenas a crimes de opinião, típica do mandato, mas à formação de quadrilha armada e ao enriquecimento ilícito.

De repente, em uma tarde comum na cidade mafiosa, um deputado do partido do governo vai ao plenário defender as milícias. Ora, afinal, é a mesma cidade em que concessões de linhas de ônibus municipais não são licitadas há 30 anos, facilitando o surgimento de transportes ilegais, principal fonte de renda das milícias.

Na cidade mafiosa, aos olhos de todos, policiais militares em motocicletas abordam e extorquem motoristas com IPVA atrasado, após consultar as placas, não nos rádios da corporação mas em aparelhos Nextel.

Na cidade mafiosa, um grupo abnegado e corajoso de delegados, procuradores e jornalistas tenta, timidamente, há mais de seis anos, através de colunas, denúncias e pronunciamentos, acordar seus companheiros para a grande organização criminosa que surge no Estado.

Nessa cidade, a Polícia Federal prendeu mais policiais civis e militares que as corregedorias destas duas polícias juntas. É mesma cidade em que a Polícia Federal também prendeu seus integrantes e indiciou delegados e agentes. Nessa cidade, agora também, a Polícia Civil prende e indicia vereadores e deputados, algo até então inimaginável na cidade mafiosa.

Os ingênuos deputados não acordaram que a premissa básica para existência do crime organizado é a simbiose com o poder estatal e isso já foi alcançado não pelo tráfico de drogas, mas pelos caças-níqueis, pelas milícias, pelas vans piratas e pela máfia dos combustíveis – aliás muito em breve os deputados estarão votando também pela liberdade de colegas representantes destas máfias.

Na cidade mafiosa, o secretário de Segurança Pública, o primeiro nos últimos dez anos com credibilidade necessária para estar à frente da função, continua insistindo nas ações de enfrentamento para desestabilizar o tráfico e apreender armas.

Cada vez mais mortes nas favelas não traduzem tranqüilidade ou paz, nem para os moradores dos morros, nem aos moradores do asfalto.

Em breve perceberá o secretário de Segurança Pública que, na cidade mafiosa, as ações nas casas legislativas são mais urgentes, eficazes e necessárias que as operações nas favelas.

Por último, na cidade mafiosa, um senador, candidato a prefeito, determina que o Exército ocupe uma favela contrariando diretrizes do comando da força e violando a Constituição Federal.”

Primos (não mais tão) distantes

Quando eu saí de São Paulo, em 2000, o trânsito já tava ruim. Mas isso foi há 8 anos. Agora, o trânsito em São Paulo é inviável. E o que me preocupa é que o Rio está indo pelo mesmo caminho.

Hoje, pra sair da Sá Ferreira, em Copa, e chegar ao Humaitá pelo túnel velho, eu demorei um século. Infelizmente não contei no relógio. Mas tenho como referência o valor do táxi: na ida, que eu não peguei trânsito, deu 10 reais e na volta, com a Nossa Senhora de Copacabana lenta e o túnel velho parado (sem motivo) deu 16 reais. É quase o dobro da grana, o que deve significar que foi quase o dobro do tempo.

A razão pra isso tá na nossa cara: desorganização. Tem que repensar a logística cidade. Essa história de proibir carga e descarga em horário de pico nas vias problemáticas é um bom começo, mas tem que botar pra funcionar e tem que fazer mais. Tem que repensar onde pode estacionar e onde não, quais linhas de ônibus têm que ser extintas e quais têm que ser criadas, quais sinais tão com tempo errado, quais ruas têm que mudar de mão. E o metrô, claro. Que tá andando tartarugamente e é importantíssimo pra acabar com isso.

Só sei que, se a gente não arrumar a casa logo a gente vai virar a prima bonita de São Paulo. E não adianta nada ser bonita mas inútil.

Cidade Maravilhosa

Tá lá no Carioquíssimo (que voltou à ativa essa semana) um vídeo incrível do Rio de Janeiro em 1936, feito pela MGM.

Ah, se a gente tivesse continuado nesse caminho!…