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Uma maratona olímpica

E então ontem, 2 de outubo, o Rio de Janeiro ganhou o direito de seriar os jogos olímpicos de 2016. Claro que o carioca comemorou. Mas também viu com muitas dúvidas a tal empreitada.

rio.span.600.1 (comemoração na praia de Copa – fonte: The New York Times)

Era sexta-feira, a praia de Copa estava fechada desde a manhã, o dia era ponto facultativo no serviço público e isso tudo misturado deu um nó na cidade. O trânsito estava péssimo o tempo inteiro, pra qualquer lado, independente do horário. E isso só por causa de uma festa – que ainda tinha a possibilidade de miar – bem num dia útil.

Aí que o carioca se pergunta: e como é que a gente vai conseguir receber um monte de gente e eventos simultâneos num Rio assim?

Assim, não vai. É por isso que, ou esse projeto que criaram para a cidade sediar os jogos muda tudo por aqui ou 2016 vai ser um caos.

rio2016_02_1707Conheço muito carioca preocupado com isso. Diz “mas tem tanta coisa mais importante pra fazer pelo Rio do que um monte de intalação esportiva!…”. E tem mesmo. E pelo que soube o projeto aposta nisso: cerca de 40% dos investimentos vão pro transporte, a polícia vai ser mais do que reforçada, e uma reforma completa no funcionamento da cidade está a caminho. O que significa que, assim como Barcelona antes dos jogos de 1992, o Rio vai se tornar um imenso e caótico canteiro de obras até 2016. Vai ser chato, estressante, mas acho que é igual xarope amargo – ruim na hora pra ficar bom depois. E esse é o maior desafio dos governos, na verdade: fazer o Rio ganhar com isso mais do que os tais equipamentos esportivos – ganhar um “depois”.

A educação do povo, acho mais do que provável, que mude. Vai se falar mais em esporte com as crianças. E com isso, elas vão praticar mais, aprender a socializar e ter responsabilidade. Vão sonhar em participar dessa festa. E se o governo incorporar isso nas escolas, melhor ainda.

Ainda tem a violência, claro. Mas te digo que, apesar da fama, o Rio não é mais violenta do que São Paulo ou outras grandes cidades brasileiras. Eu, por exemplo, morei 17 anos em Sampa e fui assaltada 5 vezes, fui até refém com arma na cabeça, enquanto aqui no Rio, já completando 10 anos, nunca me aconteceu nada. Pode ser sorte, mas a questão é que a violência desenfreada de hoje é mais do que um problema carioca – é um problema nacional. Vamos torcer pra que esse projeto de olimpíadas faça algo pela nossa parcela do problema e – por que não? – por outras parcelas também.

Se vai ser bom ou ruim, se estamos sonhando alto demais ou se a gente vai tomar o maior tombo nessa história, a gente tem sete anos pra descobrir. Só sei que eu, da minha parte, vou colaborar com o que pedirem pra que dê certo. Afinal, se é pra melhorar, sete anos passam voando!

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(PS: Não dá pra deixar de comentar a gaiatice (como diria Ancelmo Góis) do nosso povo, né? Claro que não iam deixar passar uma piada dessas! rs…)

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ATUALIZAÇÃO (04 de outubro de 2009):

Pra quem ficou curioso/interessado, O Globo publicou a lista de promessas para as Olimpíadas. Tá aqui ó.

Se tudo acontecer mesmo o Rio vai ficar uma cidade massa! ;)

Ai, meu coração!…

Outro dia vi na tevê a atriz Renata Dominguez dizendo que teve síndrome do pânico, fez tratamento (medicamentos e terapia) e que – ainda bem – tinha se curado. Mas o que me chamou atenção foi ela contando como tudo começou: taquicardia.

Lembrei imediatamente do meu cardiologista, Dr. Wellington Ferreira. Por que eu tenho um cardiologista? Exatamente porque eu comecei a sentir umas taquicardias diferentes, como se o coração batesse na garganta. Fora minha pressão que é naturalmente baixa, e uma série de sensações de cansaço e indisposição que eu sentia.

Fiz um eletro e ele me mandou fazer um teste ergométrico (aquele de correr na esteira) e um ecocardiograma. O primeiro não deu nada, o segundo também não. Mas o eco!… Bingo! Eu tenho prolapso da válvula mitral e insuficiência valvular leve.

É meio assustador saber que se tem algo no coração, mas o médico tratou de me acalmar: nada mais é do que uma imperfeição em uma das válvulas do meu coração que faz com que ela não se feche corretamente e passe um pouco de sangue quando ela deveria estar fechada. Nasci com isso, vou morrer com isso mas não vou morrer disso. E o médico falou que essa coisa toda que eu sentia era exatamente por causa do tal prolapso – que é muito mais comum do que a gente imagina.

Tente imaginar uma mulher branca, magra, ansiosa demais, irritadiça? Ela provavelmente tem prolapso. Acredite se quiser.

As consequências disso são quase nulas, a pessoa só tem que aprender que o ritmo dela para esforços físicos é diferente do das outras pessoas e que, de vez em quando, ela pode ter taquicardias. E aí é que entra o link com o primeiro parágrafo: como é o biotipo da atriz comentada mesmo?…

Ele disse que é comum pessoas com prolapso desenvolverem síndrome do pânico porque confundem a taquicardia da doença com a sensação de medo. Especialmente as pessoas que não sabem que tem prolapso, acham que estão em perigo por não saberem que o coração delas é que não está funcionando direito. Ou seja, é alarme falso e a cabeça nessas horas faz toda a diferença: se a pessoa sabe que a taquicardia está relacionada com o problema no coração só tem que controlar a cabeça pra não se deixar cair na arapuca do medo. E, te garanto, que ajuda muito.

Por que eu tou contando tudo isso? Eu não sou médica, tou longe disso, mas depois da tal entrevista fiquei pensando quantas pessoas poderiam poupar dinheiro, qualidade de vida e tempo (fora não ter que tomar os viciantes remédios tarja preta), se essa informação fosse mais divulgada? Talvez a Renata Dominguez tenha apenas prolapso e a síndrome do pânico seja só consequência de como a cabeça dela tenha interpretado as taquicardias. Vai saber?

Moral da história: tá com taquicardia? Vá a um cardiologista antes de ir ao psiquiatra. Pra mim funcionou.

Evoluindo ou Sinal dos tempos

Eu não tenho o hábito de falar de religião. Porque religião é igual futebol: cada um tem uma opinião e geralmente não está disposto a mudar. E até porque eu sou uma grande curiosa sobre religião: é só er alguém explicando uma doutrina ou ver uma porta de templo aberta que eu páro pra conhecer. Já fui em Igreja Católica Apostólica Romana, Igreja Católica Ortodoxa, Igreja Protestante, Igreja Presbiteriana, Igreja Evangélica, Templo Hare Krshna, Templo Budista, Mesquita, Encontro Espírita, Soka Gakkai. Ainda quero ir numa Sinagoga (precisa ser convidado), num terreiro de Umbanda e num de Candomblé. Enfim, tolerância religiosa é o que há. Ou melhor, tolerância é o que há.

E foi bem por isso que eu adorei quando recebi por email o texto abaixo. Mais do que sobre religião, ele é sobre tolerância e evolução da humanidade. Segue:

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DÚVIDAS BÍBLICAS

Laura Schlessinger é uma conhecida locutora de rádio nos Estados Unidos.
Ela tem um desses programas interativos que dá respostas e conselhos aos ouvintes que a chamam ao telefone.
Recentemente, perguntada sobre a homossexualidade, a locutora disse que se trata de uma abominação, pois assim a Bíblia o afirma no livro de Levítico 18:22.
Um ouvinte então escreveu-lhe uma carta que segue abaixo:
“Querida Dra. Laura:
Muito obrigado por se esforçar tanto para educar as pessoas segundo a Lei de Deus.
Eu mesmo tenho aprendido muito no seu programa de rádio e desejo compartilhar meus conhecimentos com o maior número de pessoas possível.
Por exemplo, quando alguém se põe a defender o estilo homossexual de vida eu me limito a lembrar-lhe que o livro de Levítico, no capítulo 18, verso 22, estabelece claramente que a homossexualidade é uma abominação.
E ponto final.
Mas, de qualquer forma, necessito de alguns conselhos adicionais de sua parte a respeito de outras leis bíblicas concretamente e sobre a forma de cumpri-las:
1) Gostaria de vender minha filha como serva, tal como indica o livro de Êxodo, 21:7.
Nos tempos em que vivemos, na sua opinião, qual seria o preço adequado?
2) O livro de Levítico 25:44 estabelece que posso possuir escravos, tanto homens quanto mulheres, desde que sejam adquiridos de países vizinhos. Um amigo meu afirma que isso só se aplica aos mexicanos, mas não aos canadenses. Será que a senhora poderia esclarecer esse ponto?
Por que não posso possuir escravos canadenses?
3) Sei que não estou autorizado a ter qualquer contato com mulher alguma no seu período de impureza menstrual ( Lev. 18:19, 20:18 etc. ).
O problema que se coloca é o seguinte: como posso saber se as mulheres estão menstruadas ou não? Tenho tentado perguntar-lhes, mas muitas mulheres são tímidas e outras se sentem ofendidas.
4) Tenho um vizinho que insiste em trabalhar no sábado. O livro de Êxodo 35:2 claramente estabelece que quem trabalha nos sábados deve receber a pena de morte. Isso quer dizer que eu, pessoalmente, sou obrigado a matá-lo? Será que a senhora poderia, de alguma maneira, aliviar-me dessa obrigação aborrecida?
5) No livro de Levítico 21:18-21 está estabelecido que uma pessoa não pode se aproximar do altar de Deus se tiver algum defeito na vista. Preciso confessar que eu preciso de óculos para ver. Minha acuidade visual tem de ser 100% para que eu me aproxime do altar de Deus? Será que se pode abrandar um pouco essa exigência?
6) A maioria dos meus amigos homens tem o cabelo bem cortado, muito embora isto esteja claramente proibido em Levítico 19:27.
Como é que eles devem morrer?
7) Eu sei, graças a Levítico 11:6-8, que quem tocar a pele de um porco morto fica impuro.
Acontece que eu jogo futebol americano, cujas bolas são feitas com pele de porco. Será que me será permitido continuar a jogar futebol americano se eu usar luvas?
8) Meu tio tem uma granja. Ele deixa de cumprir o que diz Levítico 19:19, pois planta dois tipos diferentes de sementes no mesmo campo, e também deixa de cumprir a sua mulher, que usa roupas de dois tecidos diferentes, a saber, algodão e poliéster. Além disso, ele passa o dia proferindo blasfêmias e se maldizendo. Será que é necessário levar a cabo o complicado procedimento de reunir todas as pessoas da vila para apedrejá-lo? Não poderíamos adotar um procedimento mais simples, qual seja o de queimá-lo numa reunião privada, como se faz com um homem que dorme com a sua sogra, ou uma mulher que dorme com o seu sogro (Levítico 20:14)?
Sei que a senhora estudou estes assuntos com grande profundidade de forma que confio plenamente na sua ajuda.
Obrigado novamente por recordar-nos que a Palavra de Deus é eterna e imutável.”

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Aos religiosos (Cristãos, provavelmente) estressadinhos de plantão, já aviso: comentários agressivos vão ser excluídos. Então espero que você tire algo bom desse texto.

"Toque-me, Sou Teu"

Existem algumas idéias que, depois que a gente fica sabendo, pensa “como-é-que-nunca-ninguém-tinha-pensado-nisso-antes?”. E essa é uma delas.

O artista Luke Jerram, da Inglaterra, teve a brilhante idéia de espalhar pianos pelas ruas, adesivados com o convite: “Toque-me, Sou Teu”. A idéia, colocada em prática em diversas cidades do mundo, veio ao Brasil através da Mostra Sesc de Artes 2008, com 8 pianos instalados pelas ruas da cidade de São Paulo.

O resultado não poderia ser melhor. As pessoas param para ver, conhecer, matar a saudade, tocar um pouquinho, se destrair e acabam fazendo amigos, se emocionando, acalmando do stress do trabalho, descobrindo uma nova paixão. Juntam-se velhos, crianças, empresários, moradores de rua, leigos, profissionais e todos cuidam dele pra que ninguém vandalize, pra que não tome chuva, pra que não estrague, pra que todos possam participar. Como é que nunca ninguém tinha pensado nisso antes?

A “instalação” de Jerram fica só até dia 18 de outubro, mas já rola uma manifestação popular para que “Deixem o Piano!”. E com razão. Não tem como não se emocionar no site do projeto, vendo as fotos, os vídeos, lendo os depoimentos. Não existe motivo pra que isso não vire uma (linda) rotina da cidade. E, que bonito seria, se a Prefeitura adotasse a idéia e espalhasse outros pianos, por tantos outros bairros. E que outras Prefeituras, de todo o Brasil, percebessem o quão brilhante e estimulante cultural e socialmente isso pode ser, e adotassem a idéia, comprando pianos e os espalhando por aí, nas ruas, ao alcance de todos. Quanto custa um piano pra uma Prefeitura diante do bem que ele trás pra população? Quase nada.

E não sai da minha cabeça: como é que nunca ninguém tinha pensado nisso antes? Deixem (mais) pianos!

Piano na Santa Cecilia - Por Felipe

(Acima, num dia à noite, pessoas se divertem com o piano no Largo de Santa Cecília. Foto do Felipe, retirada dos comentários do site do projeto)

Rio de Janeiro, a cidade mafiosa

Li esse artigo no Blog do Mauro Ventura, dO Globo. Achei tão claro e explícito, que resolvi reproduzir aqui.

O autor é Rodrigo Pimentel, ex-capital do BOPE e autor do livro “Elite da Tropa”, que deu origem ao filme “Tropa de Elite”.

Na cidade mafiosa

Recebi e-mail de Rodrigo Pimentel, roteirista do filme “Tropa de elite” e ex-capitão do Bope. O artigo intitula-se “Cidade mafiosa”:

“Na cidade mafiosa, jornalistas são barbaramente torturados por integrantes de milícia no mesmo mês em que uma bomba é lançada contra uma delegacia de polícia em uma típica ação terrorista. Em ambos os crimes, as investigações chegam à Assembléia Legislativa. No primeiro caso, um dos acusados de comandar a sessão de espancamento, segundo a própria polícia, seria integrante do gabinete do vice-presidente da casa; no segundo caso o mandante seria um deputado do partido do atual prefeito.

Na cidade mafiosa, a Polícia Civil, agora despolitizada, descobre que na casa onde 50% dos representantes respondem a processos criminais que vão de homicídios até formação de quadrilha, se conectam os crimes praticados nas ruas.

Nessa mesma cidade, 40 deputados, agora jurisconsultos, contrariando parecer dos procuradores federais, alegando inconstitucionalidade da prisão, resolvem soltar o ex-chefe de polícia e colega deputado.

Deputados, ingênuos ou mesmos coniventes, entendem que imunidade parlamentar não se aplica apenas a crimes de opinião, típica do mandato, mas à formação de quadrilha armada e ao enriquecimento ilícito.

De repente, em uma tarde comum na cidade mafiosa, um deputado do partido do governo vai ao plenário defender as milícias. Ora, afinal, é a mesma cidade em que concessões de linhas de ônibus municipais não são licitadas há 30 anos, facilitando o surgimento de transportes ilegais, principal fonte de renda das milícias.

Na cidade mafiosa, aos olhos de todos, policiais militares em motocicletas abordam e extorquem motoristas com IPVA atrasado, após consultar as placas, não nos rádios da corporação mas em aparelhos Nextel.

Na cidade mafiosa, um grupo abnegado e corajoso de delegados, procuradores e jornalistas tenta, timidamente, há mais de seis anos, através de colunas, denúncias e pronunciamentos, acordar seus companheiros para a grande organização criminosa que surge no Estado.

Nessa cidade, a Polícia Federal prendeu mais policiais civis e militares que as corregedorias destas duas polícias juntas. É mesma cidade em que a Polícia Federal também prendeu seus integrantes e indiciou delegados e agentes. Nessa cidade, agora também, a Polícia Civil prende e indicia vereadores e deputados, algo até então inimaginável na cidade mafiosa.

Os ingênuos deputados não acordaram que a premissa básica para existência do crime organizado é a simbiose com o poder estatal e isso já foi alcançado não pelo tráfico de drogas, mas pelos caças-níqueis, pelas milícias, pelas vans piratas e pela máfia dos combustíveis – aliás muito em breve os deputados estarão votando também pela liberdade de colegas representantes destas máfias.

Na cidade mafiosa, o secretário de Segurança Pública, o primeiro nos últimos dez anos com credibilidade necessária para estar à frente da função, continua insistindo nas ações de enfrentamento para desestabilizar o tráfico e apreender armas.

Cada vez mais mortes nas favelas não traduzem tranqüilidade ou paz, nem para os moradores dos morros, nem aos moradores do asfalto.

Em breve perceberá o secretário de Segurança Pública que, na cidade mafiosa, as ações nas casas legislativas são mais urgentes, eficazes e necessárias que as operações nas favelas.

Por último, na cidade mafiosa, um senador, candidato a prefeito, determina que o Exército ocupe uma favela contrariando diretrizes do comando da força e violando a Constituição Federal.”

Sobre as cotas

Li isso no blog da minha irmã e achei importante passar adiante. É um assunto difícil e precisa ser discutido. Esse artigo é do Jornalista Ali Kamel e foi publicado em 2003, nO Globo. Vale a pena ler.
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Somos todos pardos
O leitor interessado no tema certamente já ouviu ou leu esta frase: a pobreza no Brasil tem cor e ela é negra. É uma frase sempre presente nos trabalhos de pesquisadores que defendem a política de cotas raciais, seja nas universidades, seja no serviço público. Os números que eles divulgam são de fato eloqüentes. Eles sempre dizem que os brancos no Brasil são 54% da população e os negros, 45%. E se perguntam: “Será que a pobreza acompanha esses mesmos critérios demográficos?” E respondem que não: segundo um estudo com dados de 1999, dos 53 milhões de brasileiros pobres, os brancos são apenas 36% e os negros representam 64% do total. E concluem: os negros são pobres porque no Brasil há racismo.Os números são eloqüentes, mas inexatos. Segundo o mesmo estudo, os negros são 5% e não 45%. Os brancos são, de fato, 54% da população. A grande omissão diz respeito aos pardos: eles são 40% dos brasileiros (as alterações no Censo de 2000 foram mínimas). Entre os 53 milhões de pobres, os negros são 7%, e não 64%. Os brancos, 36% e os pardos, 57%. Portanto, se a pobreza tem uma cor no Brasil, essa cor é parda. O que os defensores de cotas fazem é juntar o número de pardos ao número de negros, para que a realidade lhes seja mais favorável: é apenas somando-se negros e pardos que o número de pobres chega a 64%.

Os artigos desses pesquisadores primeiro estratificam a população entre brancos, pretos, pardos, amarelos e indígenas para, logo depois, agrupar pretos e pardos e chamá-los a todos de negros (desse ponto em diante, em todas as estatísticas, há apenas menção a negros, mas, na verdade, os números se referem sempre à soma de pardos e negros). Geralmente os pesquisadores fazem a seguinte observação: “A população negra ou afro-descendente corresponde ao conjunto das pessoas que se declaram pretas ou pardas nas pesquisas do IBGE”.

O problema é definir o que é pardo. Para mim, é constrangedor ter de discutir nesses termos, eu que não tenho a cor de ninguém como critério de nada. Mas, infelizmente, é a lógica que reina no debate e eu tenho de me curvar a ela. A funcionária do IBGE que me ajuda com os números se disse parda ao censo, “parda como a Glória Pires”. Mas, para muitos, a Glória Pires é branca. Digo isso com real preocupação: quem é pardo? O pardo é um branco meio negro ou um negro meio branco?

Somar pardos e negros seria apenas um erro metodológico se não estivesse prestes a provocar uma injustiça sem tamanho. Porque todas as políticas de cotas e ações afirmativas se baseiam na certeza estatística de que os negros são 64% dos pobres, quando, na verdade, eles são apenas 7%. Na hora de entrar na universidade ou no serviço público, os negros terão vantagens. Os pardos, não. Do ponto de vista republicano, isso é grave. Na hora de justificar as cotas, os pardos são usados para engrossar (e como!) os números. Na hora de participar do benefício, serão barrados. Literalmente. Este ano, a Universidade Estadual de Matogrosso do Sul instituiu cotas para negros em seu vestibular: 20% das vagas, 328 lugares. 530 estudantes se disseram negros e tiveram de apresentar foto colorida de tamanho cinco por sete. Uma comissão de cinco pessoas foi constituída para analisar as fotos segundo alguns critérios. Só passariam os candidatos com o seguinte fenótipo: “Lábios grossos, nariz chato e cabelos pixaim”, na definição dos avaliadores. 76 foram rejeitados por não terem tais características. Provavelmente, eram pardos.

Que o Brasil é injusto, não há dúvida, mas querer criar mais uma injustiça é algo que não se entende. Por que os pardos, usados para justificar as cotas, terão de ficar fora delas, mesmo sendo tão pobres quanto os negros? Porque alguns têm nariz afilado ou cabelos ondulados? E por que os brancos, mesmo pobres, serão condenados a ficar fora da universidade? Os defensores de cotas raciais dizem que os brancos são “apenas” 36% dos pobres. Apenas? 36% significam 19 milhões de brasileiros, um enorme contingente que será abandonado à própria sorte. A simples existência de tantos brancos pobres desmentiria por si só a tese de que a pobreza discrimina entre pobres e negros: em países verdadeiramente racistas, o número de pobres brancos jamais chega próximo disso. Da mesma forma, o enorme número de brasileiros que se declaram pardos, 68 milhões numa população de 170 milhões, já mostra que somos uma nação amplamente miscigenada. Como o pardo tem de ser, necessariamente, o resultado do casamento entre brancos e negros, o número de brasileiros com algum negro na família é necessariamente alto. Isso seria a prova de que somos uma nação majoritariamente livre de ódio racial (repito que, sim, sei que o racismo existe aqui e onde mais houver seres humanos reunidos, mas, certamente, ele não é um traço marcante de nossa identidade nacional).

Todos esses números só reforçam a minha crença de que uma política de cotas raciais será extremamente prejudicial e injusta. Em todas as universidades que instituíram políticas assim há discussões antes não conhecidas entre nós: negros acusando nem tão negros assim de se beneficiaram indevidamente de cotas; pardos tentando provar que o cabelo pode não ser pixaim, mas a pele é negra; e brancos se sentindo excluídos mesmo sendo tão pobres quanto os candidatos negros beneficiados pelas cotas. Dizendo claramente: corremos o sério risco de, em breve, ver no Brasil o que nunca houve, o ódio racial. O certo é o simples: instituir cotas não raciais, mas baseadas na renda. Assim, pobres, que hoje não chegam à universidade, seriam incluídos. Sejam negros, pardos ou brancos.
ALI KAMEL é jornalista.

Fonte: O Globo Online

[O Globo Online]

Primos (não mais tão) distantes

Quando eu saí de São Paulo, em 2000, o trânsito já tava ruim. Mas isso foi há 8 anos. Agora, o trânsito em São Paulo é inviável. E o que me preocupa é que o Rio está indo pelo mesmo caminho.

Hoje, pra sair da Sá Ferreira, em Copa, e chegar ao Humaitá pelo túnel velho, eu demorei um século. Infelizmente não contei no relógio. Mas tenho como referência o valor do táxi: na ida, que eu não peguei trânsito, deu 10 reais e na volta, com a Nossa Senhora de Copacabana lenta e o túnel velho parado (sem motivo) deu 16 reais. É quase o dobro da grana, o que deve significar que foi quase o dobro do tempo.

A razão pra isso tá na nossa cara: desorganização. Tem que repensar a logística cidade. Essa história de proibir carga e descarga em horário de pico nas vias problemáticas é um bom começo, mas tem que botar pra funcionar e tem que fazer mais. Tem que repensar onde pode estacionar e onde não, quais linhas de ônibus têm que ser extintas e quais têm que ser criadas, quais sinais tão com tempo errado, quais ruas têm que mudar de mão. E o metrô, claro. Que tá andando tartarugamente e é importantíssimo pra acabar com isso.

Só sei que, se a gente não arrumar a casa logo a gente vai virar a prima bonita de São Paulo. E não adianta nada ser bonita mas inútil.

A maconha e o retrocesso

A polêmica está solta por aí desde que, há pouco mais de um mês, resolveu-se fazer uma manifestação nacional para abrir o diálogo sobre a visão legal do consumo de maconha. De um lado os Ministérios Públicos de todo o país entraram contra e proibiram as manifestações, com exceção de Pernambuco, alegando apologia ao consumo de substância ilícia. Do outro lado os manifestantes, apoiados depois do veto pela OAB-RJ, alegando a liberdade de se manifestar e questionar políticas públicas.

No final das contas o que vemos é um grande quadro de retrocesso. Por ambas as partes.

Da parte dos MPs, de querer proibir e coibir uma manifestação pacífica. Não importa o tema, desde que a manifestação seja pacífica e ordeira, cabe totalmente dentro da constitucional “liberdade de expressão”, afinal de contas as pessoas têm o direito de pensar diferente e falar sobre isso. E isso não significa que suas manifestações vão ser aceitas e absorvidas – isso vai depender, realmente, do debate público sobre o tema.

Da parte dos manifestantes – e deixo claro aqui que não todos – o retrocesso está em achar correto a liberação da maconha descriminadamente. Não é novidade para ninguém que qualquer tipo de substância que altere o estado de consciência deve ser controlada, já que não podemos confiar no bom-senso de cada um (que é totalmente subjetivo). Liberar o uso só atrasaria ainda mais o processo que o Ministério da Saúde vem realizando há anos, de tentar educar a população sobre o consumo de álcool e cigarro, nossas única drogas lícitas.

Agora, não dá pra fechar os olhos, como fingem fazer os MPs, e brincar de “maconha-não-existe”. O consumo é muito comum e visível, em qualquer setor social, então é preciso conversar sobre a legislação sim e regulamentar. Separar traficante de usuário, separar uso medicinal de diversão, separar consumo responsável de irresponsável, separar pesquisa séria e estatísticas verdadeiras de achismos. Como deve acontecer com qualquer tipo de substância alteradora.

Com certeza, mais irresponsável do que “consumir substâncias ilícitas” ou “fazer apologias” é fingir que elas não existem ou que não alteram em nada a vida das pessoas.

Tem coisa mais saudável do que conversar sobre?


Quem?

Elisa Colepicolo, ou Lili, é blogueira desde 2003, faz de tudo um pouco mas dificilmente o que não gosta. Chegada em arte, cultura inútil e viagens. Casada, entusiasta e feliz.

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