Avisei aos velhinhos que eu tava de mudança. Eles ficaram um pouco decepcionados. A essa altura do campeonato eles já estavam mais do que acostumados comigo – afinal, que ótima moradora essa que não reclama das brigas, não dá pití e ainda ensina a usar a internet em seu próprio computador, não?
Conversei com meu pai e ele topou tudo e deu carta branca pra eu comprar o que precisasse. Só o que precisasse. E isso queria dizer cama-fogão-geladeira.
Primeiro fui atrás da cama, a geladeira e o fogão ele compraria comigo quando viesse me ajudar na mudança. Como eu tava do lado da Rua Barata Ribeiro, com todas aquelas lojas, foi por lá mesmo que eu fiquei. Entrei numa loja de colchões, deitei em todos, experimentei cada cama, procurei travesseiros. Depois de algum tempo, resolvida, sentei pra fechar negócio com a vendedora numa das escrivaninhas espalhada pela loja comprida e estreita. E lá tou eu, esperando a dona preencher a nota e sentindo uma cóceguinha na perna… Tentei arrumar a barra da calça, pra ver se passava, e de dentro dela caiu uma barata enorme, que saiu andando tranquilamente para junto de suas amigas, que circulavam tranquilas junto à parede. Foi só aí, de pé e morrendo de aflição daquela sensação na canela, que olhei bem em volta e vi que muitas baratas se acumulavam pelos cantos da loja. A vendedora, sem graça, não sabia o que fazer.
- Nossa, você é muito corajosa. – ela disse – Eu já teria aberto um escândalo. (!)
Paguei o mais rápido possível e corri pra casa dos velhinhos, tomar um banho e tirar a sensação daquelas patinhas na minha canela.
Antes de instalar a cama e o colchão na casa nova eu, claro, chequei pedacinho por pedacinho da cama e do colchão, pra ver se nenhuma daquelas moradoras da Barata Ribeiro tinha vindo junto, mas sabe que nunca confiei totalmente? Sempre imaginei que dentro daqueles tubos que sustentavam meu colchão devia ter uma colônia de férias…



