Arquivo para Outubro, 2008

Mundo Novo

Eu saí de casa aos 17 anos. Deixei pra trás minha família, costumes, comodismos e, claro, amigos de uma vida inteira (mesmo que ainda tão curta). Claro que eu não tinha essa clareza toda, de que meus amigos estavam ficando pra trás. Na minha cabeça de viajante, de deslocante, um mundo novo se abria à minha frente, não fazia muito sentido pensar no que estava ficando naquela cidade que foi meu berço e que me preparou para a nova empreitada. Até porque, de alguma forma, pensava em manter fortes os vínculos – minha família toda estava ficando, como não? – e, por que não, voltar quando terminasse a faculdade.

Na cidade nova, vida nova. E sempre que começamos alguma coisa estamos abertos às novidades. Me apaixonei pelo Rio, pelos novos costumes, arrumei novos comodismos e, claro, fiz novos – e grandes – amigos. E agora, por estar longe “de casa”, meu amigos se tornaram minha nova família.

Os anos se passaram, a faculdade acabou e eu não voltei “pra casa” – agora eu tinha uma outra casa. E esses grandes amigos, que eu fui “colecionando” aqui, que formaram a base da minha nova vida, começaram a pensar em mudanças, da mesma forma que eu fiz, precocemente. E foi então que eu senti na pele o que sentiram os que me amavam e me tinham como família e amiga quando eu disse, alegremente, que estava partindo.

Três já se foram (uma pra Minas, um pro sul e outra pra Europa), dois deles quase ao mesmo tempo, este ano. E agora mais um se prepara para ir (pra Europa também).

Eu tenho me sentido triste, como se os membros da minha família estivessem saindo de casa. Por mais que eu saiba que, pra eles, é um mundo novo de descobertas que se abre alegremente e que não vale a pena pensar no que está ficando pra trás, dá uma dorzinha chata, sabe?

Eu desejo muito que eles sejam tão felizes quanto eu fui quando saí de casa. Mas vou sentir muitas saudades. Isso eu vou.

Exercício de imaginação

Imagine uma rua de mão dupla, sem acostamento. Agora imagine que ela é uma espécie de “serrinha”, que atravessa um morro. E que, em toda sua extensão ela é tomada por casas e comércios e vielas e escadões, todos muito movimentados, de ambos os lados da pista. E que essas construções são pobres, logo não há muita ordem arquitetônica nem pública e, por falta de lixeiras coletivas, o lixo das casas se espalha até pelas ruas e calçadas, em alguns pontos formando montes. E que, pela quantidade de gente e pela falta de participação dos governos e da companhia de tráfego, as pesoas estacionam onde querem, inclusive nas curvas; que, por ser ladeira e muito populoso, as pessoas utilizam muitas e muitas motos; e que duas linhas de ônibus passam por ali, subindo e descendo pela mesma via, desviando dos carros e motos estacionados, das pessoas, das curvas estreitas, das nuvens de motos, das vans e dos outros ônibus. E imagine que todos que moram ao redor já acham isso muito normal.

(Hoje eu conheci a Rocinha)

Parte da Estrada da Gávea

"Toque-me, Sou Teu"

Existem algumas idéias que, depois que a gente fica sabendo, pensa “como-é-que-nunca-ninguém-tinha-pensado-nisso-antes?”. E essa é uma delas.

O artista Luke Jerram, da Inglaterra, teve a brilhante idéia de espalhar pianos pelas ruas, adesivados com o convite: “Toque-me, Sou Teu”. A idéia, colocada em prática em diversas cidades do mundo, veio ao Brasil através da Mostra Sesc de Artes 2008, com 8 pianos instalados pelas ruas da cidade de São Paulo.

O resultado não poderia ser melhor. As pessoas param para ver, conhecer, matar a saudade, tocar um pouquinho, se destrair e acabam fazendo amigos, se emocionando, acalmando do stress do trabalho, descobrindo uma nova paixão. Juntam-se velhos, crianças, empresários, moradores de rua, leigos, profissionais e todos cuidam dele pra que ninguém vandalize, pra que não tome chuva, pra que não estrague, pra que todos possam participar. Como é que nunca ninguém tinha pensado nisso antes?

A “instalação” de Jerram fica só até dia 18 de outubro, mas já rola uma manifestação popular para que “Deixem o Piano!”. E com razão. Não tem como não se emocionar no site do projeto, vendo as fotos, os vídeos, lendo os depoimentos. Não existe motivo pra que isso não vire uma (linda) rotina da cidade. E, que bonito seria, se a Prefeitura adotasse a idéia e espalhasse outros pianos, por tantos outros bairros. E que outras Prefeituras, de todo o Brasil, percebessem o quão brilhante e estimulante cultural e socialmente isso pode ser, e adotassem a idéia, comprando pianos e os espalhando por aí, nas ruas, ao alcance de todos. Quanto custa um piano pra uma Prefeitura diante do bem que ele trás pra população? Quase nada.

E não sai da minha cabeça: como é que nunca ninguém tinha pensado nisso antes? Deixem (mais) pianos!

Piano na Santa Cecilia - Por Felipe

(Acima, num dia à noite, pessoas se divertem com o piano no Largo de Santa Cecília. Foto do Felipe, retirada dos comentários do site do projeto)