Arquivo para Agosto, 2008

Quando eu cheguei no Rio – parte 4

Depois de 6 meses morando com os velhinho no apartamento da Prado Junior e muitas participações passivas em brigas, resolvi que precisava sair de lá.

Comecei procurando apartamento no bairro ainda. O primeiro foi na própria Prado Júnior. Era na quadra da praia, num prédio com muitos comércios em baixo. Tinha um hall de elevadores aberto ao público e corredores imensos, com muitas portas. O apartamento pequeno, barulhento (mesmo sendo em andar bem alto), mas tinha vista pro mar. Não dava pra morar sozinha naquele lugar completamente desprotegido.

O segundo foi numa outra galeria, pros lados do Arpoador, na Avenida Nossa Senhora de Copacabana. Quando passei pelo corredor quase desisti de entrar no apartamento: era como o da galeria da Prado Júnior, mas tinha puta fazendo ponto no corredor. Claro que não dava pra mim – o apartamento.

O terceiro, o quarto, o quinto… todos em Copa. Todos pequenos demais, caros demais, mal localizados demais, barulhentos demais, assim mesmo, tudo junto. O bairro tem dessas coisas porque os apartamentos que eram simples pontos de apoio pras famílias que queriam ir à praia nos finais de semana, na época áurea de Copa, foram vendidos quando o bairro valorizou, nos idos dos anos 50. Então são apartamentos inabitáveis (já que não eram feitos pra isso mesmo) que se fingem de chiques. Se bem que nem fingir eles conseguem mais.

Depois de muito olhar jornal e rodar o bairro todo comecei a cogitar mudar de arredores. Olhei Botafogo, olhei Flamengo, e até Ipanema, mesmo sem cacife pra isso. E nada. Então um dia, na universidade, um amigo que sabia da minha procura disse que a família da namorada dele tinha um quarto e sala disponível na Glória. Não tava achando nada mesmo… por que não?

Eu nunca tinha ido pra Glória. Não conscientemente. Fui com ela, a namorada, de metrô. E botei isso na listinha dos pontos fortes: metrô na rua de casa. Fomos subindo a rua e eu estranhando tudo. Passamos por um paredão esquisitíssimo e o prédio ficava bem em frente. Entrei. Olhei. Fiquei encantada.

Depois, conversando com ela, a lista dos pontos fortes foram aumentando: o muro na frente do prédio era de um hospital; na rua tinha padaria, banca de jornal, mercado de frutas, locadora; o apartamento, todo equipado com armários embutidos, me isentava da compra de quase todos os móveis; eu não precisaria de fiador; o aluguel e o condomínio era pouco mais caro do que o quarto que eu alugava; e o melhor: não precisaria morar com velhinho nenhum.

Topei.

(…)

Na estrada

Se tem uma coisa que eu gosto de fazer nessa vida é viajar. Descobri isso não faz muito tempo. Até porque eu nunca tinha viajado de verdade, sabe? Dessas viagens que tomam dias e que deixam a gente realmente ansioso, esperando a hora de partir?

Fora que eu descobri que viagem, pra mim, tem que ser de carro, de trem ou de avião. Essa coisa do ônibus, de nem ter autonomia, nem espaço, nem ir de uma vez só me angustia. Digo isso porque já viajei muito de ônibus. Conheço a Dutra de trás pra frente e de frente pra trás. É horrível não saber quem vai sentar do seu lado, se você vai conseguir dormir ou não, se a parada vai ser num lugar bom. E não dá pra andar dentro. Porque o carro tem pouco espaço como o ônibus mas você pára onde quer. O trem é um pouco mais espaçoso, não faz paradas mas é mais rápido, você pode andar por ele e geralmente as cabines têm um pouco de privacidade. E o avião é até mais apertado do que o ônibus mas é muito mais rápido, muito mais rápido.

Quando eu era criança ia sempre pros mesmos lugares. Aí você pára de chamar isso de viagem, porque não tem mais novidades. Tem, de coisas diferentes do cotidiano, mas não aquele encantamento de descoberta, sabe? Ia sempre pra Ibiúna, no interior de São Paulo, e pra São Sebastião, no litoral. Sempre. O mais diferente disso, durante a infância e a pré-adolescencia, foi ir até Campos do Jordão e até Caldas Novas, em Goiás (que eu gostei muito, por sinal, mas que lembro pouca coisa, na verdade).

Aí, com 17 anos fiz minha primeira grande viagem sozinha. Fui conhecer o Rio de Janeiro. Me hospedei no único Albergue que tinha na época, o Chave do Rio, no Humaitá (que hoje não existe mais), e rodei a cidade com um amigo carioca como guia. Foi tão, mas tão incrível que, 6 meses depois, eu me mudei pra cidade.

Foi quando começou minha vida na Dutra. No primeiro ano ia quase todos os finais de semana pra São Paulo. No segundo diminuí pra 15 em 15 dias. No terceiro, uma vez em 45 dias. No quarto, uma vez por mês. E assim por diante até perder completamente a paciência com viagens de ônibus. Hoje, vou a São Paulo quando necessário, quando bate muita saudade, e/ou quando a grana dá, porque só vou de carro ou de avião – o que pode gerar intervalo de meses.

Já morando no Rio eu acabei, de carona com amigos e amores, conhecendo a região. Petrópolis, Arraial do Cabo, Cabo Frio, Saquarema, Rio das Ostras, Matias Barbosa, Juiz de Fora… ia pra onde me levavam. E ia feliz, a qualquer momento, era só chamar. Me ligavam em cima da hora: tou indo, quer ir? Eu arrumava uma mochila e saía. Não tinha nada que me prendesse mesmo.

Em 2004 tive minha primeira experiência de viagem internacional – fui conhecer o Chile – e repeti a dose em 2006 – uma viagem de 45 dias pra Europa, pra participar de um casamento grego-cipriota. Me informei o máximo possível sobre cada lugar que eu ia passar pra tentar escolher os melhores. E me dei conta que cada lugar é um lugar, cada povo, cada cultura… não importa o quanto você conheça, sempre vai ser diferente.

Acho que quando a gente cresce é que vem a idéia de que cada viagem é única. Que cada lugar é um lugar em seu particular momento. Hoje eu consigo perceber isso nas minhas viagens de infância, especialmente depois de ter passado por lugares que talvez eu nunca mais passe de novo. Eu mudei, eles mudaram, mesmo se eu voltar as coisas vão ser diferentes.

Acho que foi essa consciência que me fez gostar tanto de viajar. Porque é quando a gente sai da rotina que a gente percebe como tudo muda rápido, como as pessoas são diferentes, como o mundo é grande. E tem tanta coisa pra aprender!…

Reciclando

Quando eu era criança eu brincava com minha cumadre Dô de redublar os filmes que passavam na tevê. A gente ficava sentada no sofá, tirava o som, e ficava inventado histórias malucas com aquelas personagens. Claro que era muito divertido, mas até aí quando a gente é criança toda tiração de onda é divertida.

Como eu entrei pro teatro aos 11 anos – porque era uma ostra de tão tímida – acabei pegando gosto pela coisa e nunca parei. Fiz umas pausas, mas parar mesmo, nunca. E quando mudei pro Rio comecei a diversificar o aprendizado – que até então ficava só no palco italiano, aquele clássico de teatro, com texto, cenário e figurino, tudo padrão.

A primeira mudança foi um curso de interpretação pra tevê. Foi quando eu entendi que veículos diferentes têm linguagens diferentes. Aprendi logo na primeira aula, com uma crítica dura e bem feita, que não dava pra convencer ninguém na tevê que uma garota de 17 anos é uma mulher de 50. Não sem muita maquiagem. E depois fui aprendendo a ser mais natural, mais espontânea, mais televisiva.

A segunda mudança foi experimentar o cinema. Entendi que no cinema, diferente do teatro e da tevê, tudo demora muito tempo, é tudo muito picotado, requer muita concentração e paciência – e cansa. Pra filmar 5 minutos de curta-metragem gasta-se um final de semana inteiro. Adorei as experiências, mas infelizmente foram menos do que eu gostaria.

A terceira mudança foi aprender a técnica universal de interpretação. Como não fiz graduação em artes dramáticas, tudo o que eu tinha aprendido até então era totalmente empírico, prático. Por um lado é bom, mas por outro, a falta da teoria a gente só percebe quando aprende a dita cuja e quando vê que pode dominar, através dela, coisas que até então eram puramente instintivas. E a sensação é ótima.

A quarta mudança foi aprender a me expôr e a errar. Por mais óbvio que isso possa parecer quando se fala de arte dramática, é uma das coisas mais difíceis de fazer e que, se duvidar, a gente leva a vida toda pra dominar (confesso que eu tenho grandes dificuldades nessa).

A quinta mudança foi aprender a interpretar sem usar o corpo – o que, de alguma forma, é técnica de inflexão de texto. Comecei participando de um espetáculo de poesias e acabei aperfeiçoando no trabalho de dialogue coach, ou treinadora de diálogos (fazer os outros personagens em cena para um ator poder decorar seu papel). Aprendi a ler de forma mais dinâmica sem perder as nuances da história, expressando as emoções sem forçar nada pra isso.

E essa quinta mudança acabou me levando pra uma sexta, a atual, que acabou sendo uma volta às origens: a dublagem. Estou fazendo um curso pra aprender a dublar – ou melhor, fazer “versão brasileira”: viver uma personagem como outra atriz já viveu, usando as intenções dela mas do meu jeito, dando, através da minha voz, vida pra imagem dela. E digo que é difícil. Muito mais do que parece. Porque requer concentração, técnica e, acima de tudo, espontaneidade.

Todas essas mudanças são graduais e lentas, mas muito gratificantes, e uma vez começadas acho que nunca se encerram. Qual a próxima ou pra onde vão me levar, sabe lá. Acho que agora, mais do que nunca, eu tou entendendo que esse caminho não termina nunca. Quem sabe essa não é a sétima mudança?