Arquivo para Junho, 2008

República Tcheca

Castelo de Praga visto da Torre Karluv

Hoje passou um documentário excelente no EuroChannel sobre o imperador Rodolfo II, da Bohemia – hoje República Tcheca. E eu, que já adoro aquele lugar, não tive como não assistir. E fiquei impressionada como o cara era esclarecido. Enquanto toda a Europa entrava em crise pós-renascença, ele estimulava a produção artística e científica. Era mecenas e bancava estudos de astronomia, alquimia e até astrologia. Transformou Praga na capital de seu Império e fez acordos com os protestantes, sendo o primeiro a decretar liberdade de culto na Europa, e talvez em todo o mundo. Claro que o cara foi detido e morreu isolado. Depois disso a República Tcheca entrou em guerra santa e só saiu da escuridão com o fim do comunismo, em 1989.

Eu estive em Praga em 2006 e fiquei encantada. É uma cidade linda, harmoniosa, educada mas descontraída. A população é das mais bonitas que já vi. O peão de obras lá tem cara de modelo. E são todos muito descolados – devido à baixa religiosidade da população [segundo o Censo de 2001, 59% da população se considera sem religião]. Aparentemente é um dos países com maior concentração de ateus no mundo [30% da população], e vivem muito bem com a (pouca) diversidade religiosa [26,8% de católicos, 2,5% de protestantes e 59% de agnósticos, ateus, espiritualizados mas sem religião]. As poucas igrejas de Praga são seculares e usadas mais para concertos musicais do que para missas. Herança do Rodolfo II, agora eu sei.

Viu? A tevê não é tão oca assim – depende do que você assiste.

Rio de Janeiro, a cidade mafiosa

Li esse artigo no Blog do Mauro Ventura, dO Globo. Achei tão claro e explícito, que resolvi reproduzir aqui.

O autor é Rodrigo Pimentel, ex-capital do BOPE e autor do livro “Elite da Tropa”, que deu origem ao filme “Tropa de Elite”.

Na cidade mafiosa

Recebi e-mail de Rodrigo Pimentel, roteirista do filme “Tropa de elite” e ex-capitão do Bope. O artigo intitula-se “Cidade mafiosa”:

“Na cidade mafiosa, jornalistas são barbaramente torturados por integrantes de milícia no mesmo mês em que uma bomba é lançada contra uma delegacia de polícia em uma típica ação terrorista. Em ambos os crimes, as investigações chegam à Assembléia Legislativa. No primeiro caso, um dos acusados de comandar a sessão de espancamento, segundo a própria polícia, seria integrante do gabinete do vice-presidente da casa; no segundo caso o mandante seria um deputado do partido do atual prefeito.

Na cidade mafiosa, a Polícia Civil, agora despolitizada, descobre que na casa onde 50% dos representantes respondem a processos criminais que vão de homicídios até formação de quadrilha, se conectam os crimes praticados nas ruas.

Nessa mesma cidade, 40 deputados, agora jurisconsultos, contrariando parecer dos procuradores federais, alegando inconstitucionalidade da prisão, resolvem soltar o ex-chefe de polícia e colega deputado.

Deputados, ingênuos ou mesmos coniventes, entendem que imunidade parlamentar não se aplica apenas a crimes de opinião, típica do mandato, mas à formação de quadrilha armada e ao enriquecimento ilícito.

De repente, em uma tarde comum na cidade mafiosa, um deputado do partido do governo vai ao plenário defender as milícias. Ora, afinal, é a mesma cidade em que concessões de linhas de ônibus municipais não são licitadas há 30 anos, facilitando o surgimento de transportes ilegais, principal fonte de renda das milícias.

Na cidade mafiosa, aos olhos de todos, policiais militares em motocicletas abordam e extorquem motoristas com IPVA atrasado, após consultar as placas, não nos rádios da corporação mas em aparelhos Nextel.

Na cidade mafiosa, um grupo abnegado e corajoso de delegados, procuradores e jornalistas tenta, timidamente, há mais de seis anos, através de colunas, denúncias e pronunciamentos, acordar seus companheiros para a grande organização criminosa que surge no Estado.

Nessa cidade, a Polícia Federal prendeu mais policiais civis e militares que as corregedorias destas duas polícias juntas. É mesma cidade em que a Polícia Federal também prendeu seus integrantes e indiciou delegados e agentes. Nessa cidade, agora também, a Polícia Civil prende e indicia vereadores e deputados, algo até então inimaginável na cidade mafiosa.

Os ingênuos deputados não acordaram que a premissa básica para existência do crime organizado é a simbiose com o poder estatal e isso já foi alcançado não pelo tráfico de drogas, mas pelos caças-níqueis, pelas milícias, pelas vans piratas e pela máfia dos combustíveis – aliás muito em breve os deputados estarão votando também pela liberdade de colegas representantes destas máfias.

Na cidade mafiosa, o secretário de Segurança Pública, o primeiro nos últimos dez anos com credibilidade necessária para estar à frente da função, continua insistindo nas ações de enfrentamento para desestabilizar o tráfico e apreender armas.

Cada vez mais mortes nas favelas não traduzem tranqüilidade ou paz, nem para os moradores dos morros, nem aos moradores do asfalto.

Em breve perceberá o secretário de Segurança Pública que, na cidade mafiosa, as ações nas casas legislativas são mais urgentes, eficazes e necessárias que as operações nas favelas.

Por último, na cidade mafiosa, um senador, candidato a prefeito, determina que o Exército ocupe uma favela contrariando diretrizes do comando da força e violando a Constituição Federal.”

Fraquinha…

Contra a CSS!

A Rádio Eldorado criou um abaixo-assinado contra a criação de mais um imposto – a CSS, Contribuição Social para a Saúde – que, na teoria, seria a substituição da CPMF. Na teoria porque na prática já colocaram a IOF, que onera ainda mais que a CPMF. Ou seja, tiram um e colocam dois.

Como não faz o menor sentido mais um imposto – porque dinheiro tem, o que precisa é aplicá-lo de forma correta e honesta – manifeste-se AQUI contra a CSS, a Contribuição Sem Sentido.

Thaice

Ontem passei o dia com uma amiga, montando o site dela. O nome dela é Thaice Medeiros e ela é uma figurinista.

O site dela tá ficando lindo (claro que ainda faltam algumas fotos), e não tinha como não: o traço dela é dos mais lindos que eu conheço e ela é de um capricho raro de se ver.

Dá uma passada no site pra dar uma olhada. E se precisar de uma figurinista, a recomendação é ótima! ;)

Cartaz de

PS: (Em 2005 ela criou os croquis do figurino de um projeto meu que acabou não saindo – A Gaivota, de Antón Tchekhov. Mas como chegou no quase [uma leitura dramatizada] cheguei a montar o que seria o cartaz do espetáculo, que é esse aí acima. Ia ficar um arraso o figurino completo…)

Relação Magnética

Essa é a primeira escultura que eu e o Julio fizemos juntos.

É uma peça feita com metais e imãs, e é interativa – as chapinhas podem ser mudadas conforme o gosto do freguês.

Sobre as cotas

Li isso no blog da minha irmã e achei importante passar adiante. É um assunto difícil e precisa ser discutido. Esse artigo é do Jornalista Ali Kamel e foi publicado em 2003, nO Globo. Vale a pena ler.
**
Somos todos pardos
O leitor interessado no tema certamente já ouviu ou leu esta frase: a pobreza no Brasil tem cor e ela é negra. É uma frase sempre presente nos trabalhos de pesquisadores que defendem a política de cotas raciais, seja nas universidades, seja no serviço público. Os números que eles divulgam são de fato eloqüentes. Eles sempre dizem que os brancos no Brasil são 54% da população e os negros, 45%. E se perguntam: “Será que a pobreza acompanha esses mesmos critérios demográficos?” E respondem que não: segundo um estudo com dados de 1999, dos 53 milhões de brasileiros pobres, os brancos são apenas 36% e os negros representam 64% do total. E concluem: os negros são pobres porque no Brasil há racismo.Os números são eloqüentes, mas inexatos. Segundo o mesmo estudo, os negros são 5% e não 45%. Os brancos são, de fato, 54% da população. A grande omissão diz respeito aos pardos: eles são 40% dos brasileiros (as alterações no Censo de 2000 foram mínimas). Entre os 53 milhões de pobres, os negros são 7%, e não 64%. Os brancos, 36% e os pardos, 57%. Portanto, se a pobreza tem uma cor no Brasil, essa cor é parda. O que os defensores de cotas fazem é juntar o número de pardos ao número de negros, para que a realidade lhes seja mais favorável: é apenas somando-se negros e pardos que o número de pobres chega a 64%.

Os artigos desses pesquisadores primeiro estratificam a população entre brancos, pretos, pardos, amarelos e indígenas para, logo depois, agrupar pretos e pardos e chamá-los a todos de negros (desse ponto em diante, em todas as estatísticas, há apenas menção a negros, mas, na verdade, os números se referem sempre à soma de pardos e negros). Geralmente os pesquisadores fazem a seguinte observação: “A população negra ou afro-descendente corresponde ao conjunto das pessoas que se declaram pretas ou pardas nas pesquisas do IBGE”.

O problema é definir o que é pardo. Para mim, é constrangedor ter de discutir nesses termos, eu que não tenho a cor de ninguém como critério de nada. Mas, infelizmente, é a lógica que reina no debate e eu tenho de me curvar a ela. A funcionária do IBGE que me ajuda com os números se disse parda ao censo, “parda como a Glória Pires”. Mas, para muitos, a Glória Pires é branca. Digo isso com real preocupação: quem é pardo? O pardo é um branco meio negro ou um negro meio branco?

Somar pardos e negros seria apenas um erro metodológico se não estivesse prestes a provocar uma injustiça sem tamanho. Porque todas as políticas de cotas e ações afirmativas se baseiam na certeza estatística de que os negros são 64% dos pobres, quando, na verdade, eles são apenas 7%. Na hora de entrar na universidade ou no serviço público, os negros terão vantagens. Os pardos, não. Do ponto de vista republicano, isso é grave. Na hora de justificar as cotas, os pardos são usados para engrossar (e como!) os números. Na hora de participar do benefício, serão barrados. Literalmente. Este ano, a Universidade Estadual de Matogrosso do Sul instituiu cotas para negros em seu vestibular: 20% das vagas, 328 lugares. 530 estudantes se disseram negros e tiveram de apresentar foto colorida de tamanho cinco por sete. Uma comissão de cinco pessoas foi constituída para analisar as fotos segundo alguns critérios. Só passariam os candidatos com o seguinte fenótipo: “Lábios grossos, nariz chato e cabelos pixaim”, na definição dos avaliadores. 76 foram rejeitados por não terem tais características. Provavelmente, eram pardos.

Que o Brasil é injusto, não há dúvida, mas querer criar mais uma injustiça é algo que não se entende. Por que os pardos, usados para justificar as cotas, terão de ficar fora delas, mesmo sendo tão pobres quanto os negros? Porque alguns têm nariz afilado ou cabelos ondulados? E por que os brancos, mesmo pobres, serão condenados a ficar fora da universidade? Os defensores de cotas raciais dizem que os brancos são “apenas” 36% dos pobres. Apenas? 36% significam 19 milhões de brasileiros, um enorme contingente que será abandonado à própria sorte. A simples existência de tantos brancos pobres desmentiria por si só a tese de que a pobreza discrimina entre pobres e negros: em países verdadeiramente racistas, o número de pobres brancos jamais chega próximo disso. Da mesma forma, o enorme número de brasileiros que se declaram pardos, 68 milhões numa população de 170 milhões, já mostra que somos uma nação amplamente miscigenada. Como o pardo tem de ser, necessariamente, o resultado do casamento entre brancos e negros, o número de brasileiros com algum negro na família é necessariamente alto. Isso seria a prova de que somos uma nação majoritariamente livre de ódio racial (repito que, sim, sei que o racismo existe aqui e onde mais houver seres humanos reunidos, mas, certamente, ele não é um traço marcante de nossa identidade nacional).

Todos esses números só reforçam a minha crença de que uma política de cotas raciais será extremamente prejudicial e injusta. Em todas as universidades que instituíram políticas assim há discussões antes não conhecidas entre nós: negros acusando nem tão negros assim de se beneficiaram indevidamente de cotas; pardos tentando provar que o cabelo pode não ser pixaim, mas a pele é negra; e brancos se sentindo excluídos mesmo sendo tão pobres quanto os candidatos negros beneficiados pelas cotas. Dizendo claramente: corremos o sério risco de, em breve, ver no Brasil o que nunca houve, o ódio racial. O certo é o simples: instituir cotas não raciais, mas baseadas na renda. Assim, pobres, que hoje não chegam à universidade, seriam incluídos. Sejam negros, pardos ou brancos.
ALI KAMEL é jornalista.

Fonte: O Globo Online

[O Globo Online]