Tem certas coisas que a gente nem percebe mas atravancam a vida que só. Eu tou (re)descobrindo o que atravanca a minha. E uma das coisas que eu descobri é que minha criação de paulistana-da-periferia-de-família-classe-média-de-comerciantes me trava. Isso porque eu fui criada para sorrir, não expressar emoções “ruins” e servir bem para servir sempre. E esse tipo de comportamento vai contra o “seja você mesmo”, “não engula sapo gordo demais”, “batalhe loucamente pelo que você quer”.
Descobri há pouco tempo que eu não encaixo na faixa das pessoas que podem contar com o “dinheiro fácil” do trabalho em cinema publicitário. Tudo por causa de uma característica específica do meu rosto. Que, aliás, não desabona em nada a minha capacidade de trabalhar nem me deforma. Mas que não serve no geral para se passar uma imagem perfeita para um produto perfeito. E, claro, isso bateu de frente com o falso ideal de perfeição que eu sempre carreguei, resquício da criação-princesa que eu tive. E me levou pro chão sem eu nem perceber.
Passei os últimos meses desestimulada do trabalho sem saber por quê. O prazer simplesmente havia sumido. Ontem caiu a ficha.
Foi só ontem que entendi (de verdade, conscientemente) que ninguém é perfeito, que agradar a todos é impossível, não encaixar numa categoria não me desmerece em outras, que se eu não me manifestar e não sair da concha vou continuar presa dentro dela. E que sorrir e servir-bem-para-servir-sempre não podem ser regras de vida. Definitivamente.
É difícil romper com o que já está enraizado. Dói, dá insegurança, dá medo. Mas precisa ser feito. Senão não tem progresso. Porque dizer “eu sou assim” não encaixa numa filosofia de vida que você é o que menos incomoda os outros: assim é como os outros vêem você, não como você se vê.
O primeiro passo foi entender, o segundo está sendo esclarecer. Agora é efetivamente botar na prática.
Será que vai dar pé? Vai dar pé.
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PS: Não renego, de forma alguma, minha criação. Meus pais são uns fofos e sempre fizeram de tudo pra me ver feliz – um dos motivos de eu ser tão mimada. Mas tem certas coisas que estão fora da redoma. E é isso que eu tou tentado achar.







