Na quarta-fera passada fui pela 1a vez ao Maracanã assistir a uma partida de futebol. Eu já tinha ido a passeio (acompanhar el maridón no trabalho dele) e para assistir ao show da Madonna, então faltava só conhecer o templo em sua função principal: futebol.
(essa foi tirada na visita que fiz com el maridón, em 2008)
Não dava pra deixar passar a oportunidade: jogo internacional (Fluminense x Cerro Porteño, ou seja, jogo de uma torcida só), com ingressos baratos (15 reais pra todos os setores, menos cadeiras especiais) e a um mês do fechamento do estádio para reformas (ele fecha com o final do campeonato brasileiro, agora em dezembro de 2009, e só reabre pra Copa do Mundo, em 2012).
Convenci el maridón flamenguista que eu PRECISAVA ir ao Maraca e que ele se divertiria também e naquele clima de a-gente-não-vai-fazer-nada-na-quarta-à-noite-mesmo ele topou.
Durante a tarde da quarta decidimos não ir de metrô – demoraria uma hora a mais, e eu estaria cansada de um dia longo de trabalho; fora que o Maraca, pelo túnel, de carro, fica a 15 minutos da minha casa, o que é uma corrida barata de taxi. Então saímos de casa 20h20 pra ver a partida marcada pras 21h50.
Os 15 minutos, claro, com o trânsito pra se chegar ao estádio somado às obras do metrô na praça da bandeira, viraram quase 30. Mas estávamos adiantados e dispostos a manter o bom-humor. Ao nosso redor, nos carros, camisas do tricolor ao volante deixavam claro que o caminho do metrô pode ser mais longo, mas definitivamente é mais fluido.
O taxi nos deixou do outro lado da avenida Radial Oeste, na passarela do trem. E nós, leigos de estádio, não tínhamos idéia qual era o nosso portão de entrada. Atravessamos a avenida e fomos no primeiro que vimos. E já na entrada meu coração disparou: o som da torcida, ainda do lado de fora, é uma coisa inexplicável. Na fila de catracas vários velhinhos e velhinhas recolhiam os bilhetes, controlando a entrada. Perguntamos pra um sobre nosso setor (arquibancada verde).
- A entrada não é aqui. Mas vocês querem mesmo ir na arquibancada? Vocês podem ficar aqui se vocês quiserem.
- Aqui? Mas aqui é melhor que na arquibancada? – perguntei pro el maridón, que já tinha se situado e é muito mais entendido de Maracanã do que eu.
- Não sei se é melhor. Aqui são as cadeiras inferiores. Fica mais perto do campo, pode ser bom. Quer ficar aqui?
- Ah, por mim, pode ser.
O velhinho entendeu que sim e chamou outro cara, que abriu a roleta, passou o nosso bilhete com ela aberta e mandou a gente passar. El maridón saiu andando sem nem olhar pra trás. Eu peguei os ingressos furados, agradeci e saí atrás dele.
- Ele queria ganhar um.
- Jura? – eu, a tonta.
- Claro. Disse pra ele que eu voltava depois, mas não vou voltar. Pagar mais caro por um ingresso que pra todo mundo custou 15 reais?
E fomos procurar um lugar.
As cadeiras inferiores são a base do estádio. Os torcedores ficam quase na beira do campo, vêem o estádio todo em cima – cheio com a torcida organizada todo juntinha e bonita –, fica tão próximo que dá pra ver tudo o que acontece com detalhes. Bom, foi o que el maridón disse, já que essa coisa de “detalhes” de longe não é comigo.
Sentamos bem no meio do campo, do lado oposto dos bancos de reserva, atrás daqueles anúncios publicitários (essa foi uma das novidades pra mim: só tem anúncio de um lado do campo – que é o lado filmado pela TV). Não estava vazio, mas também não estava cheio. Ao nosso redor turistas estrangeiros, muitas famílias com crianças, uma trinca de velhinhos (duas “as” e um “o”)paramentados dos pés às cabeças, todo tipo de gente que resolveu aproveitar a mesma chance que nós. Na nossa frente quase um espelho: um casal – ela fluminense, com camisa do time e tudo, acompanhada do namorado flamenguista, interessado, apesar de não ser o time dele.
Começou o jogo. A torcida organizada, no mezanino, deu um show. Hinos, palmas, fogos, pó-de-arroz. A imagem do campo ficou branca durante uns 10 minutos. E outra novidade: durante o jogo não há narrador no estádio nem replay das jogadas; por isso se vê tanta gente de fone de ouvido ou de radinho colado na orelha durante o jogo, mesmo com a torcida emocionante ali tão pertinho.
Foi então que, ainda no começo, o Cerro fez seu primeiro gol. Mas o que deveria desanimar a torcida nem arranhou. Até porque, o Flu tinha a vantagem do empate, então, se o resultado final fosse esse a decisão seria nos pênaltis. E o primeiro tempo terminou assim, numa tensão fraca, otimista.
No interavalo apareceram mais pessoas perto da gente. Mais uma família com uma menininha de uns 7 anos chegou, os gringos puxaram papo com o casal Fla-Flu na nossa frente e um gordinho ansioso sentou atrás. E passou sorvete, biscoito, água, amendoim, pipoca.
Pessoas alimentadas, começou o 2o tempo. Aumentou a interação entre a galera. De repente todo mundo comentava as jogadas com todo mundo. O pai tricolor tenso, coitado, se controlava pra não assustar a filha com seus gritos e palavrões; a mãe ria. O gordinho reclamava. Os gringos riam. A bola rolando, jogadores machucados, e nada de sair o gol. E a torcida não deixou de estimular o time um segundo sequer. Todo mundo conformado com os pênaltis quando, aos 47 do segundo tempo, Gum – com uma faixa na cabeça depois de toma uma cotovelada na sobrancelha e sangrar a beça – marcou.
O que é um estádio todo pulando e berrando junto por um gol!?
Já felizes, vencedores, tivemos outra supresa: aos 49, o Cerro, desesperado, todo no ataque, não esperava o contra-ataque de Alan, que saiu correndo com a bola, deu de cara com o goleiro no meio do campo, teve o sangue frio de driblá-lo e só então, em segunraça, marcar o segundo do Flu!
O Maracanã foi ao delírio!
Mas, claro, o Cerro não gostou. E a equipe saiu pro ataque, literalmente, dando início a um mega quebra-pau dentro de campo.
- Melhor a gente ir, antes que isso piore. O jogo tem que acabar agora mesmo. – el maridón disse já se levantando.
Fomos pelos corredores acompanhando com o olhar a polícia separando a briga. O público vaiava como se dissesse “nós nos comportamos tão bem, por que é que vocês não se comportam também?”. A briga parou, a gente também. E vimos o juiz apitar o fim e o time do Flu correr pra torcida, na nossa direção. Tudo bem quando termina bem.
Saímos do estádio e tinha uma fila de taxis esperando a galera sair. Pegamos um, contamos o jogo pro motorista e em 15 minutos estávamos em casa. Depois el maridón – que ninguém nos ouça – confessou que nunca vibrou tanto como naquele 2o gol. Foi mesmo memorável.
Tivemos sorte, vimos talvez o melhor jogo do ano. Uma incrível boas-vindas do Maraca pra uma iniciante das arquibancadas!








